
Daniel prega a soberania do Deus verdadeiro, firma a esperança messiânica. Múltiplos, porém, os problemas que apresenta o Livro de Daniel no que tange à sua autoria, data e composição. Seja qual for a opinião emitida o que interessa realmente é ser ele um livro canônico. Para os católicos todas as suas partes são inspiradas. Confortadoras as mensagens que oferece, não obstante as dificuldades de interpretação que muitas passagens apresentam. O texto, curiosamente, foi escrito em hebraico (1,1-2,4a; 8-21), aramaico (2,4b-7,28), sendo estas as partes protocanônicas, e em grego (3,24-90; 13-14), trechos deuterocanônicos. Não se sabe em que língua foi escrito original das passagens conhecidas apenas em grego. Apesar disto, a unidade do livro é certa e não há necessidade de se recorrer a duplicidade de autores por causa do bilingüismo existente. Os capítulos deuterocanônicos (13 e 14) pelas suas características devem ser atribuídos a outro autor. Na Bíblia hebraica Daniel está colocado entre Ester e Esdras-Neemias. Na versão dos Setenta e outras, se encontra após Ezequiel, entre os livros proféticos. A tese tradicional atribui a obra ao profeta Daniel, que o escreveu no final do Cativeiro babilônico e na fase subseqüente, sexto século antes de Cristo. A opinião contrária afirma que o livro é do segundo século, e, assim, impugna a origem daniélica. Renié observa: “Os racionalistas, e com eles quase todos os críticos protestantes modernos, asseguram que o livro de Daniel teria sido composto na época dos Macabeus, sob o reino de Antíoco Epifânio que, sob a cor de profecia, fiel às leis de um gênero literário em voga na sua época, o gênero apocalíptico, o autor recontaria acontecimentos passados”. A tese não é nova, dado que ela remonta ao neoplatônico Porfírio (303). Foi ela combatida pelos antigos escritores eclesiásticos, sobretudo Eusébio de Cesaréia e São Jerônimo. Apesar dos argumentos apresentados por aqueles biblistas que aderem a esta opinião, firmados na crítica interna do texto, a posição tradicional pode ser aceita. Com efeito, é preciso se ter em conta que os erros e as inexatidões apontados podem ser perfeitamente atribuídos aos copistas que facilmente deturpam nomes próprios e números. Além disto, Daniel não fez história segundo o atual rigor metodológico. O milagre é possível e Deus pode perfeitamente realizar prodígios do porte dos narrados neste livro. Adite-se que termos introduzidos e que indicariam uma data mais recente para o escrito podem ter sido colocados pelo tradutor. O fato dos livros posteriores ao exílio não falarem de Daniel não é razão ponderável, pois podem ser detectadas alusões às visões daniélicas em Ageu, Malaquias e Zacarias (1,18; 6,1). Cristo declarou: “Quando, pois, virdes a “abominação da desolação”, que foi predita pelo profeta Daniel (9,27), “posta no lugar santo” o que lê entenda então os que se acham na Judéia, fujam para os montes ...” (Mt 24,15). É difícil aceitar que Jesus simplesmente se acomodou à maneira de falar de seus contemporâneos. Observa-se que “Daniel, da mesma forma que Ezequiel, exerceu o seu longo ministério profético durante o período do exílio. Se entre os dois profetas tenha havido algum trabalho em conjunto, como seria de supor, nenhuma notícia histórica nos foi conservada. A sua posição social muito teve de semelhante com a que alcançou José no Egito. A ele os judeus deviam agradecer em grande parte a conservação de sua fé e muitos favores materiais, como possivelmente o próprio edito libertador de Ciro. Com efeito, deve ter sido de grande alcance a sua influência na corte como primeiro ministro do império. Nesta posição e aureolado com o dom da profecia muito contribuiu para espalhar pelo mundo de então o conhecimento do Deus de Israel e das esperanças messiânicas”. De acordo com o texto bíblico Daniel pertencia à tribo de Judá (1,6). Cativo em Babilônia, foi educado na corte com outros compatriotas. Após três anos de acurada formação, ele e três companheiros foram requisitados para o serviço do rei. A Daniel fora dado por Deus o dom da interpretação dos sonhos. Daí o privilégio que passou a ter junto dos reis babilônicos. Nabucodonosor o elevou “às maiores honras, deu-lhes muitos e magníficos presentes, constituiu-o governador de todas as províncias de Babilônia, presidente dos magistrados e todos os sábios da Babilônia” (2,48). Dario sobre os sátrapas “constituiu três príncipes, dos quais Daniel era um, a fim de que estes sátrapas lhes dessem conta dos negócios, e o rei não tivesse nenhum cuidado. Ora Daniel evangelizava a todos os príncipes e sátrapas, porque era nele mais abundante o espírito de Deus” (6,2-3). A derradeira visão deste profeta data do terceiro ano do reinado de Ciro (10,1). A Bíblia não dá outros dados sobre o restante de sua vida. Daniel além de confortar os judeus no cativeiro, foi, de fato, o impertérrito defensor do poder do Deus verdadeiro, o propugnador da esperança messiânica.* Professor no Seminário de Mariana - MG
Nenhum comentário:
Postar um comentário